Acrescentando...
A possibilidade de conecção entre objetos aparentemente díspares me encanta. As diversas possibilidades na leitura da realidade, o simples ato de mover o olhar e lá se fazer presente um outro ponto de vista, uma outra face do mesmo ato. Ver além do que nos é mostrado, do que nos é condicionado ver. Como diria Arthur Bispo do Rosário, que ficou durante anos internado na Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, como louco e que produziu arte com objetos de uso pessoal.
"No início, eu arrancava a linha da minha roupa para fazer meu bordado. A cada dia meus trabalhos ficavam mais bonitos e a cada dia minhas roupas ficavam menores. Por isso, costuro principalmente em azul. Azul não é a cor de minha expressão. Azul é a cor das calças e da roupa de cama dadas aos pacientes.internos.malucos.prisioneiros na Colônia Juliano Moreira, e era a única linha que eu tinha antes que eles começassem a chamar a minha organização do mundo de "arte" e as pessoas começassem a me trazer sucata e outros itens de utilidade.
Às vezes eu costurava tanto, as idéias vindo tão rápido, que no fim sobrava apenas uma manga de camisa. Eu a usava lá fora, para perambular com os outros pacientes nus, que arrancavam as roupas porque pensavam que fossem camisas-de-força.abelhas.zumbindo.fogo. Levava horas até o pessoal vir me apanhar. Levaram anos para perceber que eu andava nu somente por necessidade do meu trabalho, que se eu tivesse materiais amplos e apropriados, de boa vontade conservaria minhas roupas de cama.
Aqueles foram os dias mais lindos, escondido atrás das plantas abandonadas do jardim, deitado com pedrinhas colocadas ao redor da minha cabeça como auréola, no pátio não varrido com o calor do sol do Rio no meu pênis e na minha barriga".
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